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repertório dos paradigmas de som

Elipse ou assíndeto

Omissão de um elemento ou trecho da sequência sonora.

sinónimos: elisão

Este termo1 também é utilizado no repertório de efeitos de retórica, literatura e cinema. Talvez seja mais fácil apreendê-lo se recordarmos que as reticências, designadas em inglês ellipse, são utilizadas na literatura para subtrair ao texto frases, trechos e até cenas inteiras. Exemplo: «ele subiu para o autocarro, comprou o bilhete (…) desceu na avenida (…)» – temos aqui algumas cenas suficientes para situar a acção e demonstrar que o utente em questão não possui um passe de transportes públicos, mas o que aconteceu durante o percurso e depois de sair do autocarro fica entregue à imaginação do leitor. O funcionamento da elipse sonora é muito semelhante: só existe elipse efectiva quando o ouvinte é obrigado a usar a sua própria imaginação para reconstruir a totalidade da cena.

Expressões mediáticas

A escrita de argumento e a montagem cinematográfica recorrem amiúde à elipse, tal como a literatura e a linguagem corrente.

A elipse representa uma grande economia nos processos de criação artística. No dia-a-dia, o nosso espírito está constantemente a apagar tudo quanto não nos interessa, o que nos poupa a um enorme desgaste psicológico (ouvir tudo o que dizem à nossa volta, numa cidade, conduziria à loucura), até porque as pessoas que trabalham em ambientes muito ruidosos ou com grandes cargas informativas sofrem sempre uma enorme tensão e no limite podem cair em esgotamento.

Quanto ao processo de criação artística, pode dizer-se que uma grande parte do trabalho criativo consiste em elidir, omitir, apagar o que não interessa, excluir tudo o que possa ser contrário ao ganho de concentração e imaginação por parte do espectador.

No entanto, do ponto de vista estilístico, elidir também pode ser uma maneira de chamar a atenção para algo que não está presente mas que, por isso mesmo, ganha uma importância extraordinária.

No filme In The Mood For Love (Disponível para Amar, Wong Kar Wai, 2000), a maioria dos planos enquadra elementos decorativos que são eles próprios molduras ou barreiras. Ao longo de todo o filme vemos os personagens do outro lado das portas, das janelas, dos tabiques, dos gradeamentos, do lado de lá das mesas e balcões, com candeeiros e estantes pelo meio; enfim, há sempre elementos do décor que nos elidem a maior parte dos elementos pessoais relativos a cada personagem (como é o quarto dele? o que está ele a fazer no trabalho? quem mais está presente na sala?). Esta elisão sistemática obriga o espectador a reconstruir o ambiente emocional das personagens; todas elas apresentam vastas zonas de reserva, escusam revelar-se, admitir seja quem for na sua intimidade; a intimidade foi elidida. Numa época em que a utilização do grande plano se tornou obsessiva, este filme obriga-nos a repensar o valor comparativo (caso a caso, evidentemente) dos planos abertos versus planos fechados, da elipse versus declaração explícita e por extenso.

Rui Viana Pereira, 2000 ► última revisão: 13-07-2023
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