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repertório dos paradigmas de som

Anamnese: reminiscências, remissões, referências

Fragmento sonoro significante que desencadeia a memória, evocando um acontecimento ou um ambiente passados.1

categoria: semântica

Quase todos os paradigmas de som elencados neste repertório envolvem o sentido atribuído aos sons; esta operação, por sua vez, apela indirectamente à memória. O que a anamnese tem de especial é que faz esse apelo de forma directa. Existem diversas variantes de anamnese, nomeadamente:

O termo anamnese designa na sua origem uma figura de retórica que consiste em fazer renascer algo na memória. É também o nome da técnica usada em medicina para levar o paciente a recordar-se de acontecimentos e sintomas importantes para o diagnóstico; a musicoterapia também usa este paradigma, havendo repertórios de músicas com capacidade evocadora.

A anamnese pode actuar sobre qualquer espaço de tempo – tanto pode chamar à memória uma frase ouvida poucos minutos antes, como desencadear memórias de infância. Resultado: perante o mesmo efeito de anamnese, pode acontecer que diferentes ouvintes desencadeiem memórias e significados diferentes, ou mesmo nenhum significado, especialmente quando é feita referência a um contexto externo à sequência sonora em curso.

Citação

A citação consiste na emergência no contexto presente de um fragmento sonoro pertencente a um contexto externo, recorrendo à sua réplica textual.

Distingue-se da repetição (por exemplo, a repetição de um tema ao longo de uma obra musical), porque a autocitação não apela à evocação de contextos externos. Distingue-se da imitação por ser textual, isto é, repete o trecho citado sem o alterar.

O ambiente cultural é um pressuposto importante no efeito provocado pela citação: na maioria dos casos, o ouvinte deve possuir a referência em questão, para construir plenamente o significado pretendido.

Imitação

A imitação consiste na produção de um fragmento sonoro com intenção referencial a um contexto externo, sem contudo recorrer à sua réplica textual.

Numa obra musical, por exemplo, a imitação do canto do rouxinol pode remeter para a natureza campestre. Esta referência, apesar de não ser textual, tem o poder de deslocar a nossa imaginação para um contexto previamente conhecido e, graças ao facto de não ser uma referência textual, deixa uma larga margem de manobra à imaginação criativa do ouvinte. Pelo contrário, numa sequência de música concreta, a reprodução textual do canto do rouxinol constituiria uma citação.

Os referidos podem ser de todos os tipos – um mito, uma obra de arte, ícones de outras culturas, pessoas, etc. – e a referência tem sempre uma intenção semântica criativa: visa a produção de um sentido que vai mais além do referido, pela simples razão de este ser colocado fora do seu contexto original.

Uma vez que a imitação aposta com frequência na distorção do objecto imitado, podendo recorrer a ícones ou cópias deturpadas do original e misturar estratégias de referência directas e indirectas, basta que a memória do ouvinte não possua uma dessas referências, para que a imitação assuma o aspecto de uma charada insolúvel ou de um trecho vazio de significado. Por exemplo, para imitar um político, o imitador pode tentar reproduzir parcialmente o timbre, as cadências de fala, etc., de forma caricatural, e virar-lhe o discurso do avesso (veja-se por exemplo a imitação de Marcelo Rebelo de Sousa por Ricardo Araújo Pereira). Na verdade, a imitação tem frequentemente um efeito hilariante, mas, como se vê no exemplo dado, é indispensável que o espectador conheça a figura imitada e os seus discursos, para que a imitação adquira sentido próprio.

Repetição e leitmotiv

A repetição e o leitmotiv consistem na reprodução de um fragmento usado anteriormente no contexto da própria sequência sonora em curso.

Enquanto a citação e a imitação são anamneses que recorrem a contextos externos e têm um efeito potencialmente imprevisível, por dependerem dos recursos mnemónicos e culturais do ouvinte, o leitmotiv produz um efeito mais seguro, visto que o referido foi previamente fornecido ao ouvinte no contexto em curso.

O leitmotiv, desenvolvido de forma sistemática nas óperas de Richard Wagner e posteriormente adoptado nas obras de muitos outros autores, tornou-se um recurso comum em todas as artes que possuem uma dimensão temporal – em particular a música, o cinema e o teatro.

Acústica e física

Por natureza, não há análise física aplicável à anamnese, cujo carácter é eminentemente semântico e o domínio, subjectivo. Não é possível isolar traços físicos responsáveis pelo seu efeito: num caso será a letra duma canção, noutro caso o tom roufenho duma gravação, noutro caso o estilo musical, e assim por diante.

No entanto deve notar-se que os meios técnicos ligados à captação e difusão do som ficam indelevelmente ligados à recordação (ou à mitificação) de determinadas épocas: o tipo de som das gravações em vinil, o tipo de filtragem dos telefones antigos, a sonoridade das televisões antigas. Nestes casos, existem factores elementares, do tipo filtragem, que podem ser fisicamente estudados e simulados por meios electroacústicos.

Arquitectura e urbanismo

A evocação de outros lugares e tempos salta mais claramente à vista quando se viaja ou quando a estrutura urbana sofre grandes alterações. Por vezes basta levantar ou arrasar um muro para despoletar processos ligados à memória, uma vez que os muros constituem barreiras ao som.

A concepção de «jardins sonoros» (descritos na ficha sobre o bordão) é também um exemplo de imitação.

Estética musical

A música serve-se de artifícios do tipo leitmotiv, repetição, citação, para evocar momentos anteriores da composição ou de outras músicas. A imitação também é usada nas obras musicais, embora o ouvinte só a reconheça quando possui memória do referido.

O cinema e a dança recorrem abundantemente à música como meio de evocar personagens, ambientes exteriores à acção, mas também momentos anteriores da própria narrativa em curso. Por similitude, podemos dizer que se uma imagem pode poupar mil palavras, um som pode poupar mil imagens, pois basta muitas vezes uma leve evocação auditiva para trazer à memória um personagem ou uma cena na sua totalidade. Exemplo desta técnica é Once Upon a Time in The West [Era Uma Vez no Oeste], de Sergio Leone (1968), em que a apresentação de cada personagem é acompanhada de uma melodia própria com uma coloração orquestral específica; ao longo da narrativa, o recurso à citação de cada um desses temas musicais reforça a memória do que cada personagem é e fez, impede que o espectador se perca no rol de personagens e dispensa flash-backs, inserts e outros truques mancos.

O jogo de imitação mútua entre voz e trompete no jazz, nomeadamente em Miles Davis, é sobejamente conhecido. Conhecida é também a troca de imitações e citações entre o jazz e a música erudita contemporânea.

A música para cinema é particularmente fecunda neste domínio – por exemplo, a imitação de Beethoven em Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971).

Expressões mediáticas

É interessante verificar como nas famílias migrantes a conversação corre de língua em língua, conforme o clima que se pretende instalar. Todas as línguas são veículos de memória e significado; mesmo uma linguagem que nos seja estranha pode remeter para situações míticas, sensações de vizinhança ou estranheza, etc., e o trabalho poético incide muitas vezes na escolha laboriosa de palavras ou sílabas cuja conjugação auditiva parece fazer nascer por magia na imaginação outras palavras e outras memórias.

Na performance/dança Estórias de Um Corpo, de Teresa Prima (2002), a utilização sucessiva de subtis gestos retirados do tempo e dos jogos de infância teve o dom de comover intensamente alguns espectadores (segundo o seu próprio testemunho), de tal forma esses gestos se tornaram evocadores – ao mesmo tempo que a banda sonora remetia para a intimidade, recorrendo ao som dos electrodomésticos, dos zunzuns da vizinhança, das pêndulas avoengas, dos sons quotidianos muito familiares vindos de uma realidade além-vidraças.

O poder evocador do som é tanto mais forte quanto começa geralmente por actuar a um nível inconsciente, para depois despoletar (ou não) uma outra consciência. Perante uma imagem retro, é quase inevitável chamar à consciência, em pé de igualdade com as recordações, o pensamento analítico («isto é uma coisa antiga, da década tal, estilo coiso-e-tal, de quando eu namorava Fulana de Tal no Jardim Botânico»). Mas perante um som habilidosamente composto ou filtrado, é frequente que o efeito da anamnese seja puramente emotivo, não suscitando qualquer reflexão consciente. Esta capacidade confere-lhe um poder extraordinário ao nível dos efeitos sobre o receptor. Podemos traçar paralelos entre este paradigma e a performance e dança contemporânea, porque a citação de gestos e atitudes corporais, quando utilizados para constituírem um discurso, tem uma capacidade evocadora e emotiva perante a qual toda a fria análise se acha impotente.

A música clássica e o cinema recorrem abundantemente à anamnese – por exemplo, o uso repetido de um fragmento de uma frase musical, ainda que deturpando-a, para trazer à memória um tema anteriormente apresentado. No caso do cinema, a evocação parcial de um som/ruído/ambiente já conhecidos pode provocar um efeito de dominó na memória, relembrando personagens, cenas, etc., e neste sentido obedece ao princípio da economia de meios, assinalado na Introdução.

Psicologia e fisiologia da percepção

A anamnese tem especial relevância no foro da cognição, da psicologia individual e da organização geral da percepção. Por vezes basta o timbre de uma voz ou o som de um objecto, para evocar a memória de uma relação pessoal.

As reminiscências despertas não se limitam ao som: evocam todos os aspectos sensoriais e emotivos ligados àquele som num determinado momento da vida. O nosso armazenamento mnemónico não se realiza peça à peça, mas sim em «pacotes» que incluem tudo o que aconteceu num determinado momento: todas as percepções sensoriais activas (o cheiro, o som, o tacto, etc.), a postura corporal, as relações pessoais envolvidas, etc. Assim, por exemplo, ao recordar a primeira vez que vimos uma águia cruzar o céu, tenderemos a recordar o cheiro dos campos, a postura que tivemos de assumir para olhar para o céu, a temperatura do ar, a pessoa com quem estávamos, etc. (se esses elementos forem importantes na ocasião). Exemplo típico da totalidade perceptiva envolvida numa reminiscência é o caso clínico de uma viúva que, sempre que o telefone tocava e ela o atendia, julgava reconhecer a voz do defunto marido. Neste exemplo, o que importa não é a voz em si mesma, mas sim um conjunto de circunstâncias e memórias pessoais.

Ainda no domínio da psicologia regista-se uma experiência que consiste em filtrar a voz materna e dá-la a ouvir a crianças muito jovens, para que elas recordem aspectos da situação intra-uterina.

Em suma, o paradigma sonoro da anamnese é um utensílio poderoso, mas tem um senão: nem sempre é possível prever o seu efeito no receptor, porque ele depende tanto das memórias colectivas como da memória pessoal.

Quanto à imitação/citação, é um mecanismo naturalmente impresso na natureza humana. Sem ele não existiria aprendizagem nem desenvolvimento pleno do aparelho cognitivo. Mesmo que ainda não compreenda o conteúdo da mensagem, o bebé começa por tentar imitar as vocalizações dos que o rodeiam – imitação/citação material pode anteceder a produção de sentido textual.

Cada língua e cada região cultural privilegia determinadas frequências, certa colocação da voz, certos ritmos de articulação e pontuação; daí a facilidade com que tantas vezes desvendamos a origem de um grupo estrangeiro, mesmo quando não estamos em condições de entender uma só palavra, pois reconhecemos a toada e a colocação de voz. Todos estes elementos podem ser imitados, como muito bem sabem os actores e os humoristas.

Nas sociedades em que o peso da transmissão oral da cultura é ainda muito forte, a aprendizagem das canções e respectiva letra vem logo a seguir ao domínio das capacidades de vocalização. Também neste caso não é importante que a criança comece por apreender o sentido das palavras que entoa. Este processo de aprendizagem é duplamente importante, pois a modulação da voz no canto implica uma aprendizagem de autoescuta, que tem papel capital na formação pessoal.

Sociologia e cultura quotidiana

Um dos principais métodos de investigação utilizados no Laboratoire Cresson a partir de 1983 consiste em gravar ambiências e acontecimentos sonoros no âmbito familiar, dando posteriormente essas mesmas gravações a ouvir e a comentar aos membros desse agregado.

Além da dimensão individual, o efeito de anamnese pode estar ligado às dimensões arquetípicas de cada cultura: sons de quedas de água, do galope de manadas, do crepitar do fogo, da tempestade, do canto de certas aves, de grandes maquinarias industriais, do trânsito urbano, dos estádios de futebol, de hinos nacionais, podem desencadear emoções profundas ou evocar tarefas sociais, mitos, rituais colectivos, provocando um incontrolável impulso emocional, do qual algumas das expressões físicas mais correntes são as lágrimas e o arrepio.

Todas as crianças sabem fazer o jogo da imitação – onomatopeias, representação de carros, comboios, aviões e animais, e até mesmo a imitação jocosa da maneira de falar e estar dos adultos. Aliás, a imitação e a repetição são importantes instrumentos de aprendizagem.

Os actores de comédia são geralmente peritos na arte da imitação – veja-se a hilariante interpretação de Roberto Begnini no papel de taxista a falar consigo mesmo por rádio-telefone.

A percentagem de expressões e onomatopeias utilizada na comunicação interpessoal dentro de certos grupos, fazendo referência a banda desenhada, TV, percussão musical, etc., pode ocupar a comunicação interna de um grupo durante horas a fio – é assim que cada um manifesta a sua fidelidade/pertença ao grupo.

Muitas vezes basta a reprodução imitativa de um pormenor para despoletar a reconstrução de todo um cenário e forma de viver; ou a recitação abreviada de um conjunto de ideais, juras e acções, para referir um projecto inteiro de sociedade, uma ética, uma tradição, etc.

Finalmente, refira-se que existem inúmeros exemplos de imitação mútua entre a actividade sonora dos outros animais e a dos seres humanos.

Rui Viana Pereira, 2021 ► última revisão: 29-03-2023
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