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repertório dos paradigmas de som

O registo sonoro como transcodificação da realidade

Antes da década de 1920,1 os meios de gravação sonora eram analógicos, o que significa que podíamos ver a mecânica da gravação em acção, como sucede com as engrenagens de um relógio analógico.2 Era razoavelmente fácil compreender o mecanismo da gravação e portanto, como sucede com outros aparelhos analógicos, um utilizador habilidoso podia modificar um fonógrafo em função dos seus objectivos.

A invenção da gravação sonora por meios electrónicos ou digitais pôs fim a essa relação simples e directa entre o utensílio e o utilizador, introduzindo algo que podemos equiparar a uma relação de alienação entre o produtor, os meios de produção e o produto. Os aparelhos electrónicos de registo, edição e síntese funcionam agora como «caixas negras», no sentido que Vilém Flusser atribui à expressão. A partir do momento em que eles foram criados, passou a ser muito problemático um autor modificar a seu gosto os aparelhos de que necessita para trabalhar o som.5 Esta cesura entre o artífice e as suas ferramentas envolve uma complexa divisão social do trabalho e separa o produtor da panóplia técnica do produtor da obra final. A cisão consuma-se por fim no facto de – ao contrário do que sucedia com os aparelhos analógicos «primitivos» –, o aparelho de gravação e o aparelho de reprodução se terem tornado distintos, de tal forma que o criador de uma obra sonora já não pode controlar cabalmente a forma como ela será reproduzida.

O gravador é uma caixa negra de Flusser

Captação de som é uma das expressões consagradas quando se fala de som. A expressão é adequada, mas pode induzir no leitor incauto a ideia falaciosa de que o registo sonoro consiste numa amostra (sample) pura da realidade, capturada como se fosse um peixe no mar. O objecto sonoro proveniente de uma gravação não é um pedaço da realidade, como quando vamos à loja de tecidos pedir uma amostra. É uma representação transcodificada da realidade.

O que se passa dentro de uma caixa negra, sirva ela para gravar sons ou imagens? É um lugar, bastante inacessível ao escrutínio e ao entendimento do utilizador mediano, onde um conjunto articulado de fórmulas (criadas por alguém com quem não temos relação directa) se agita, para construir uma representação codificada e desmaterializada da realidade. A codificação, seja ela feita em suporte electromagnético ou digital, é concebida a partir de fórmulas abstractas3, e posteriormente descodificada na forma de ondas sonoras, rematerializada, de modo que os seres humanos a entendam.

O circuito de produção sonora, que nos surge esquematicamente como

{gravação electrónica → reprodução electrónica}

esconde tão perfeitamente a sua própria natureza, que é a de

{codificação da realidade → registo codificado → transcodifica­ção
para a rea­li­dade}

que nem nos apercebemos de estarmos perante uma meta-representação.

Na literatura erudita sobre computadores, aquilo a que chamamos comummente desktop – uma imagem dinâmica com a qual interagimos – é designado metáfora. Esta designação faz todo o sentido, porque os dados digitais são-nos apresentados sob a forma de imagens que imitam uma secretária (desktop) com arquivadores e estantes de escrita. O que está dentro do computador (a caixa negra) em nada se assemelha ao que vemos no ecrã, mas esta representação metafórica é a única forma de transmitir informação humanamente compreensível.

Assim também os aparelhos electrónicos e digitais de som relacionam-se connosco por meio de metáforas que traduzem para linguagem humanizada uma transcodificação da realidade.

Para poder funcionar, a caixa negra utiliza um vasto conjunto de recursos provenientes de diversos ramos da ciência, ou seja, fórmulas de representação abstracta do mundo que nos rodeia. Uma gravação é, digamos assim, uma meta-representação4 – sem dúvida o seu resultado final é palpável, mas o seu processo de produção assenta num conjunto de códigos abstractos; é mediado por uma visão científica do mundo. Inevitavelmente, o carácter abstracto desse processo reflecte-se no produto final.

Imagem espectral de uma entrevista-testemunho sobre o massacre de Batepá, em São Tomé

Espectrograma de uma entrevista áudio com cerca de 40 segundos. O espectrograma é uma metáfora visual da informação digital, a qual por sua vez é uma codificação do som captado. O programa digital usado neste exemplo oferece a possibilidade de actuar sobre o som como se estivéssemos a trabalhar sobre uma pintura.

Estas meta-representações sonoras não parecem sê-lo, porque o primeiro nível de abstracção (a codificação do mundo sonoro) é invisível, está escondido dentro de uma caixa negra: não vemos as fórmulas de física, electrónica, acústica, agitarem-se dentro da caixa, como as rodas de uma engrenagem. Ora, como não as vemos, como a mão do primeiro criador/intermediário (a ciência) simula estar ausente, parece-nos mais imediata e natural a identificação de uma foto ou de uma gravação sonora digital com a realidade, do que um retrato a óleo, uma gravação analógica ou uma sinfonia, nos quais a presença intermediária da mão humana é mais evidente. No caso de uma sinfonia tocada ao vivo, é-nos muito fácil reconhecer que entre nós e o autor existe um ou vários criadores intermédios (intérpretes) e que o produto final é uma ficção na qual nós próprios participamos enquanto intérpretes/leitores finais. A consciência de estarmos na presença de uma condição ficcional é mais difícil de alcançar quando se interpõe uma caixa negra, isto é, quando no processo de produção existem intermediários/intérpretes invisíveis.

 


Notas:

[1] Uma história resumida dos meios de gravação e reprodução sonora pode ser consultada em «Gravação e Reprodução Sonora», Wikipedia (consultado em 25/08/2022).

[2] Na realidade, a invenção dos princípios básicos da electroacústica que permitem construir um microfone e aparelhos reprodutores de áudio é anterior (basta pensarmos no telefone – 1876, Alexander Graham Bell). A partir de 1920 começou a ser possível fazer a gravação óptica do som, numa faixa marginal das películas de filme (daí a expressão «banda sonora»); por volta de 1940 já existia tecnologia suficiente para construir um gravador electrónico e aparelhos emissores de som com bastante qualidade, mas a possibilidade prática de os consumidores (apenas os endinheirados, nessa época…) trabalharem áudio só chegou na década de 1950. A «democratização» massiva dos meios de registo e edição sonora foi progredindo desde então. Quase 50 anos mais tarde, ficou ao alcance de qualquer pessoa que possua um smartphone.

[3] O termo abstracção designa nestas páginas o despojamento, no todo ou em parte, das quatro dimensões da realidade  íntegra. É certo que uma pintura também representa uma realidade despojada de uma parte das suas dimensões intrínsecas; no entanto, ela é em si mesma um objecto concreto e autónomo – não pode ser vista como uma abstracção. Exemplo perfeito de abstracção é a aritmética elementar, que me permite dizer 100+100=200. Posso afirmá-lo com a certeza de não ser incongruente com a realidade que me rodeia, mas … não sei se estou a falar de laranjas, de pessoas ou de borboletas – é uma abstracção pura, porque despoja a realidade concreta de todas as suas dimensões.

[4] Para compreender a relação estreita que existe entre meta-representação e metáfora, consulte-se a etimologia de representação.

[5] Em comparação com as velhas tecnologias analógicas, os instrumentos digitais oferecem ao utilizador mais opções de utilização, criando assim a ilusão de uma total liberdade criativa.

Rui Viana Pereira, 2000 ► última revisão: 10-12-2023
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